Monte de Adoração

Paulo Moral & Cecília Moral

PQGP 47 – A Ética Relacional dos Profetas 2 – O Profeta e a Instituição

(ins.ti.tu:i.ção) sf.
1 Ação ou resultado de instituir;
2 Aquilo que foi instituído ou estabelecido.
3 Soc. Costume ou estrutura social decorrente de necessidades sociais básicas, muitas vezes estabelecidas por lei, que vigoram num país ou num povo: a instituição da propriedade privada: a instituição do casamento.
4 Organização que atende interesses e necessidades sociais, coletivos (instituição religiosa; instituição militar).
5 Órgão público ou privado que presta serviços necessários à determinada sociedade ou à comunidade mundial.
6 Estabelecimento que se dedica ao ensino, à educação.
7 Qualquer agremiação ou corporação.
8 Fig. Personalidade célebre em sua comunidade ou mesmo além de seus limites.

Instituição canônica
1 Ecles. Atribuição e imposição a um clérigo dos poderes espirituais de um cargo eclesiástico, e da jurisdição correspondente.

2. A ÉTICA PROFÉTICA – O PROFETA E A INSTITUIÇÃO

No Antigo Testamento há um choque entre os profetas e os sacerdotes.   Respeitosamente, peço-lhes para irem ao meu site e lerem a palestra que apresentei ao Seminário Teológico Batista do Paraná com o título “Sacerdotes e profetas – um choque esperado”. Não repetirei a palestra aqui, mas reafirmo que a razão principal do choque foi que o sacerdote institucionalizou a religião. Tirou-a da esfera do relacionamento espiritual e a conseqüente implicação ética com Deus e a transformou em matéria de rito. O sacerdócio institucionalizou a religião. Esta é uma das maiores tentações e um dos mais graves riscos que enfrentamos, o de transformar o relacionamento com Deus em modelos humanos, colocando-o em cápsulas, que só nós sabemos fabricar e estamos autorizados a distribuir, tendo o copyright de Deus.  Hoje a institucionalização ritualística vem com um impressionante poder de massificação. Há gestos e palavras que são autênticos shiboleths. Quem não os faz e não os diz é mundano ou carnal. Aqui em Macapá, por exemplo, se dez pessoas forem à frente, as dez dirão “Graça e paz, amados!”. O indigitado que disser “Boa noite!” será visto como mundano. Corinho, a gente tem que cantar com ar de quem está com crise de cálculo renal. Há o rito em nível macro e o há em nível micro. E há ritos dos frios e os ritos dos quentes. Dos tradicionais e dos avivados. No fundo, a mesma raiz: temos a fórmula certa para usar Deus e se alguém não a usa, estranhamos. Foi o que sacerdote do Antigo Testamento fez. Ele sabia como Deus devia ser adorado. A massificação em qualquer dos dois níveis tira a individualidade na adoração. E cria uma falsa descontração. Poucas coisas são tão sem nexo como dizer: “Seja descontraído!”. De paletó e gravata eu me sinto descontraído. De bermuda e chinelos, na rua, eu me sinto contraído. Não se estabelece descontração.

A instituição é, em parte, necessária. Ela surge para viabilizar uma idéia. O problema é que, em alguns momentos, a instituição se torna mais importante que a idéia. Ela burocratiza a idéia e burocratas gostam muito de status. A gravata é mais imponente que a enxada. O profeta precisa se entender com a instituição porque precisa que a idéia seja viabilizada. Ele vive para propagar a idéia. Mas deve se esforçar para que a instituição não abafe a vida que há na idéia. A institucionalização da fé é mortal para a igreja. Os profetas foram homens que viram isso e lutaram contra a institucionalização. E curiosamente, criaram novas instituições. No Norte, onde não havia levitas nem templo, porque a Palavra do Senhor ficou no Sul, Elias criou as escolas de profetas. Eliseu continuou a prática. E parece que abriu mais escolas. O profetismo agora tinha uma instituição para produzir profetas. A instituição não é, necessariamente, inimiga, pois pode dinamizar a idéia. Mas representa um risco.

A revolução dos bichos, uma aguda crítica de Orwell ao edifício comunista, mostra isso de maneira muito clara. Aos poucos, os porcos, que eram revolucionários, deixaram de ser porcos e se tornaram como os antigos donos da fazenda, tão imperialistas como eles. Já andavam sobre duas patas, usavam roupas caras e fumavam charutos.  Quanta revolução acabou gerando males piores que os que se propôs a combater! Inclusive revoluções espirituais. Não é estranho que o protestantismo, que começou do combate às indulgências, que era a venda de perdão, tenha gerado igrejas que vendem bênçãos? O princípio é o mesmo: a bênção é de quem paga. É a crença de que dinheiro pode manipular Deus. Assim, alguns profetas se tornaram lobistas de Deus.

Amamos instituições. Elas nos dão a sensação de que estamos fazendo alguma coisa. Com nossas instituições, mostramos que somos importantes e damo-nos títulos, o que nos torna superiores. Eu sou batista. E da Convenção Batista Brasileira. Em minha denominação, que muito amo, gastamos mais tempo com nossas instituições que com os propósitos para os quais elas foram criadas. Elas consomem nossas energias, nosso humor e muito dos nossos recursos financeiros. O profeta precisa estar atento para denunciar quando a instituição, ao invés de serva do evangelho, torna o evangelho seu refém.

Como profetas, precisamos entender que o pecado tem uma dimensão espiritual, que vemos com razoável facilidade. Mas tem também uma dimensão social que nem sempre apontamos,  e uma dimensão estrutural que quase nunca vemos. Esta questão do pecado estrutural precisa ser mais ponderada entre nós. Rousseau viu pelo lado equivocado do binóculo. Não é a sociedade que corrompe o homem. É o homem que corrompe a sociedade. Tudo que Midas tocava se tornava em ouro. Tudo que o homem toca se transforma em lama. Ele é um rei Midas ás avessas.  Recomendo-lhes lerem o livro ou assistirem o filme O senhor das moscas. Verão que o mal brota de dentro do homem. É o que sai do homem que o contamina, disse Jesus.

Jesus também focou isto, o pecado institucional, quando disse que o templo, que deveria ser casa de oração, se tornara antro de corrupção. O profeta precisa ser um critico de seu povo, de sua casa, de suas instituições. Não podemos desancar as instituições alheias e sacralizar as nossas. Sabem do que estou teologicamente falando, quando faço a crítica das instituições? Da pecaminosidade da raça humana, de algo que a teologia reformada chama de “depravação da raça”. Há muitos profetas hoje que são ingênuos. Perderam de vista o ensino bíblico e aceitam os conceitos do Iluminismo e do racionalismo (isto me soa pleonasmo) sobre a bondade do homem, e acham que a maior necessidade do mundo é de origem social e institucional. Novas instituições, novas ordens sociais, novas ideologias, podem resolver os males humanos. O profeta diz que não. Ele reconhece que o mal se entranha nas instituições, até mesmo nas religiosas. A luta por poder nos bastidores das denominações evangélicas nos mostra isso.

O profeta, muitas vezes, lutará contra a instituição religiosa, como Jeremias o fez, em nome do verdadeiro relacionamento com Deus. Ele terá sempre uma postura de serviço e de vigilância. Ele precisa chamar a instituição corrompida à conversão. As brigas institucionais, muitas por motivos pouco nobres, como a luta por poder e dinheiro, são doloridas, demandam muitas emoções, produzem desgastes e deslustram o evangelho de Jesus. O ambiente se torna não cristão, pelo descontrole emocional dos envolvidos. O profeta é ético aqui. Não compactua com o erro, não se considera acima do erro, e chama pessoas e instituições à conversão. O problema é que esta palavra anda sumida de nossa pregação. Muito da pregação dos profetas contemporâneos é para fidelizar clientes e não para chamá-los a acertarem a vida com Deus.

3. A ÉTICA PROFÉTICA – O PROFETA E SEU DEUS (próximo artigo)

Anúncios

28 de abril de 2012 - Posted by | Kerigma

Nenhum comentário ainda.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: