Monte de Adoração

Paulo Moral & Cecília Moral

PQGP 46 – A Ética Relacional dos Profetas 1 – Introdução e Profeta e Profetas

Esta séria fala dos relacionamentos entre os profetas, líderes e pregadores da Palavra de Deus. A ética manifestada entre os líderes revelam a ética da Igreja em geral. Se isso for verdade, precisamos nos converter de nós mesmos.

Boa leitura.

A ÉTICA RELACIONAL DOS PROFETAS

Palestra preparada pelo Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho para a FATECH (Faculdade de Teologia e Ciências Humanas, de Macapá), e apresentada em 2.12.12, na 8ª. Semana Teológica “Religião e política na crise da civilização contemporânea”

Ontem falei sobre a ética pessoal dos profetas. Se alguém esperava um discurso político, frustrou-se. E hoje deve continuar frustrado. Mas creio que minha trilha é correta. Lembro-me de uma citação atribuída a Mark Twain: “Muita gente fala em mudar o mundo, mas ninguém quer mudar-se a si mesmo”. Primeiro os profetas e a igreja, que deve ser uma comunidade profética ao mundo, devem colocar sua vida em ordem. Depois terão condições de chamar o mundo à mudança. Ética começa com os que a apregoam.  Eis uma oportuna citação de Tozer: “A noção popular de que a primeira obrigação da igreja é disseminar o evangelho até os confins da terra é falsa. A sua primeira obrigação é ser espiritualmente digna de disseminá-lo”[1]. Quero usar esta citação no contexto profético. Se a igreja quer falar de ética ao mundo deve lembrar que a ética deve começar em seus domínios. Por isso vou falar de ética relacional, hoje. Os profetas sabiam se relacionar. Nao eram apenas emissores de acusações aos outros. Sabiam como deviam viver, e é disso que quero tratar disto hoje.

Abordarei três áreas de relacionamento dos profetas, vendo-as como necessárias em nossa vida. A primeira área de ética relacional dos profetas se deu no trato entre si.

1. A ÉTICA PROFÉTICA – O PROFETA E OS PROFETAS

Comentei, na palestra anterior, o estranho caso de dois profetas anônimos, em 1Reis 13. Um profeta mente ao outro, usando o nome de Deus em sua mentira. Acusa-o, depois, em nome de Deus. Após sua morte, chora-o e pede para ser sepultado na cova dele. É um episódio singular, de uso do nome de Deus em vão, de mentira, de traição a um colega, um choro que fica difícil de classificar. Mas nao é a regra, felizmente. É verdade que há muito uso indevido do nome de Deus e muita acusação mutua entre profetas. Mas não é o princípio bíblico.

O relacionamento entre Elias e Eliseu é bem significativo e nos instrui também. Eliseu surge como se fosse um aprendiz de Elias. E na medida em que os dias deste se abreviam aqui na terra, a convivência dentre os dois vai aumentando. É um caso típico de tutoria, ou de mentoreamento, como se diz agora (nós nos amarramos em terminologias novas – usar jargões e termos técnicos dá a idéia de profissionais atualizados). Elias sairá de cena, e Eliseu será o novo líder. Mas o clima entre os dois é de respeito e de entendimento. Elias não é visto por Eliseu como se fosse um velho com cheiro de naftalina. E Eliseu não é, para Elias, o neófito com cheiro de talco Johnson. É uma transição difícil para os dois. Saber sair de cena requer maturidade. E entrar em cena também. Elias foi muito bem sucedido, e a tarefa não será fácil para Eliseu. E ele faz um pedido estranho a Elias: uma porção dobrada do espírito de Elias (2Rs 2.9). Vez por outra ouço crente pedindo uma porção dobrada do Espírito de Deus. O sujeito tem pouca ambição. Quer ser duas vezes Deus. Porque foi isto que Eliseu pediu: ser duas vezes Elias. E conseguiu. Elias fez sete milagres, e Eliseu fez catorze. Elias não ficou chocado com o desejo de seu sucessor em suplantá-lo. Eles não estavam em concorrência. Os profetas tinham uma missão do Senhor, e não uma missão pessoal. Mesmo que não esteja ligado ao poder estrutural, o profeta não é autônomo. Ele tem um Senhor acima dele.

Elias também não zombou do pedido do seu auxiliar. Aceitou-o como algo normal. Há uma ética de respeito e de bom relacionamento entre estes dois profetas. Não eram o velho sabichão e o calouro ignorante. Viam-se como homens de Deus. Os dois profetas nos trazem lições bem valiosas. Da parte de Elias, aprendemos sobre a hora de saber sair de cena. Nós somos substituíveis. E vamos sair de cena, deixando de ser protagonistas ativos de um reino que não é nosso. Da parte de Eliseu, aprendemos como é importante entrar pela porta da frente, com dignidade, e não pela janela dos fundos, no serviço a Deus. Há um tempo e um momento para cada profeta. E, em conjunto, os dois nos ensinam como os servos de Deus devem trabalhar em harmonia. O espírito de competição e o desejo de ser grande, de fazer um nome para si, no melhor estilo da cultura de Babel (“Façamo-nos um nome!”) têm tornado o reino de Deus um campo de batalha entre alguns profetas. Graças a Deus porque há os serviçais, os que querem levantar o nome sobre todo nome, o nome de Jesus. Mas há os que querem levantar o seu nome. Pelo menos já o colocam em letras garrafais em cartazes de boa feitura.

Volto à questão do respeito mutuo entre os profetas. Pouco antes das últimas eleições, dois pastores conhecidos trocaram ofensas pela Internet. Alguns irmãos encheram meu correio eletrônico com as declarações dos dois, o que me era absolutamente desnecessário. Foi um momento lamentável. Foi mais uma descida dos evangélicos brasileiros ao fundo do poço. A linguagem e o trato não eram de dois pastores, homens que deviam ter suas vidas pautadas pelo ensino do Novo Testamento no tocante ao respeito e a moderação no trato. Pareciam mais dois arruaceiros que dois crentes. Criado em fundos de botequim (meu pai teve bares) vi uma linguagem que não encontrei nem mesmo entre pinguços. Troca de ofensas, desaforo, ameaça de agressão física, um péssimo testemunho. Pessoas com um tênue resquício de educação não agem assim, o que dirá dois profetas de Deus, de quem se espera compostura. O mais chocante foi a torcida na “platéia profética”, com grupos de torcedores espancando um ou outro, verbalmente. Estamos mesmo gravemente doentes, e não nos damos contas disso. Elias e Eliseu poderiam ensinar alguma coisa. Mas os profetas de hoje lutam por espaço, poder e dinheiro para seus ministérios. E são mais apaixonados por seus conceitos políticos que pelos conceitos da Palavra de Deus. E muitos sofrem da doença mais comum a acometer a liderança evangélica, doença que o teólogo John Stott chamou de “holofotite”.

Paulo foi duro com Pedro, e o chamou de “dissimulado”: “Quando, porém, Cefas veio a Antioquia, resisti-lhe na cara, porque era repreensível. Pois antes de chegarem alguns da parte de Tiago, ele comia com os gentios; mas quando eles chegaram, se foi retirando e se apartava deles, temendo os que eram da circuncisão. E os outros judeus também dissimularam com ele, de modo que até Barnabé se deixou levar pela sua dissimulação” (Gl 2.11), mas parece que foi necessário, naquele contexto mencionado, agir assim. No entanto, isto parece ter sido ato isolado. E Pedro não se tornou inimigo de Paulo nem agiu na base do “bateu, levou”, como muitos profetas de hoje, bem distantes do seu Mestre, costumam fazer. Elogiou-o e o chamou de “amado irmão Paulo” (2Pe 3.15). Paulo teve séria desavença com Barnabé por causa de João Marcos: “Decorridos alguns dias, disse Paulo a Barnabé: Tornemos a visitar os irmãos por todas as cidades em que temos anunciado a palavra do Senhor, para ver como vão. Ora, Barnabé queria que levassem também a João, chamado Marcos. Mas a Paulo não parecia razoável que tomassem consigo aquele que desde a Panfília se tinha apartado deles e não os tinha acompanhado no trabalho. E houve entre eles tal desavença que se separaram um do outro, e Barnabé, levando consigo a Marcos, navegou para Chipre. Mas Paulo, tendo escolhido a Silas, partiu encomendado pelos irmãos à graça do Senhor” (At 15.36-40). Mais tarde, mostrou reconhecer e valorizar Marcos e o viu como útil a ele, Paulo: “só Lucas está comigo. Toma a Marcos e traze-o contigo, porque me é muito útil para o ministério” (2Tm 4.11). Paulo se recusou a entrar em competição com Apolo: “Porque, dizendo um: Eu sou de Paulo; e outro: Eu de Apolo; não sois apenas homens? Pois, que é Apolo, e que é Paulo, senão ministros pelos quais crestes, e isso conforme o que o Senhor concedeu a cada um? Eu plantei; Apolo regou; mas Deus deu o crescimento. De modo que, nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas Deus, que dá o crescimento” (1Co 3.4-7). Os profetas de hoje precisam parar de ver a igreja como sua propriedade e o reino de Deus como algo que eles podem lotear entre si. Precisamos devolver a igreja ao seu dono, Jesus, porque alguns profetas a tomaram para si.

Profetas são servos e não acionistas majoritários da igreja. Muito menos são donos do reino. Há um espírito de competição que é danoso para o reino e um escândalo para o mundo. Pedro diz que o julgamento de Deus começa pela sua casa: “Porque já é tempo que comece o julgamento pela casa de Deus; e se começa por nós, qual será o fim daqueles que desobedecem ao evangelho de Deus?” ( 1Pe 4.17). Pretendidos profetas e igrejas, comunidades proféticas, devem se lembrar disto. Deus nos julgará pela maneira com que nos portamos com o seu reino.

2. A ÉTICA PROFÉTICA – O PROFETA E A INSTITUIÇÃO (próximo artigo)

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20 de abril de 2012 - Posted by | Kerigma

2 Comentários »

  1. Onde podemos encontrar que a maldição proferida pelo profeta só poderia ser anulada por um profeta igual ou maior

    Comentário por adalto | 14 de novembro de 2016 | Responder

    • Olá Adalto. Obrigado por escrever. Adalto, me desculpe mas, não entendi sua pergunta. Você pode dar mais detalhes?

      Comentário por Paulo Moral | 14 de novembro de 2016 | Responder


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