Monte de Adoração

Paulo Moral & Cecília Moral

Você Tem o Poder!!!!!

Você Tem o Poder!!!

Pronto – agora que tenho sua atenção, por causa do título que usei, vou dizer o verdadeiro tema desse artigo: O que é o Poder e para que serve.

Tenho compartilhado reflexões teológicas, pensamentos que ajudam o pregador e pastor a desenvolver um espírito mais crítico para com seu próprio ministério. Esse exercício nos faz refletir sobre muitas frases, afirmações, ‘profecias’ que ouvimos de púlpitos, e, preciso dizer, que muitas delas não passam de espasmos emocionais, que tem só aparência de espiritualidade, porque não podem ser fundamentadas na Palavra de Deus no formato que a estão proferindo. Coisas do tipo: “Você tem o poder”; “Não importa o que aconteça, você não será envergonhado”; “Profetize a vitória ao seu irmão”; “O poder de Deus está com você, então você vencerá todos os seus inimigos”. UHUUULLL.

A Palavra de Deus afirma que veio o Seu Poder em Nós pelo Espírito Santo, mas o que é isso? E para que serve? Sim, importa o que aconteça… dependendo do que for, você será envergonhado sim. Profetizar a vitória significa o que? O que é profetizar? De que vitória estamos falando??? Como está seu irmão de verdade? Dá pra saber? Venceremos nossos inimigos? Dá pra explicar? Quem são nossos inimigos? Se deixar tudo isso só no subjetivismo de cada indivíduo, cada um fará o que quiser com o que ouvir. Chegará a qualquer conclusão, a que melhor lhe convier. O perigo é sair de um lugar assim, com uma descarga nova de endorfina no cérebro, mas sem nenhum valor absoluto da Palavra de Deus que nos alinhe à Sua Vontade e nos afaste do pecado.

O que é o Poder de Deus e para que serve? Quero observar um texto e me divertir junto com você numa aventura exegética.

Contrariando o bom censo de alguns peritos em homilia e escritores, começo me desculpando pois reconheço minhas limitações no caminho que propus. Por isso será uma aventura. Você pode gostar ou não. Te convido a vir.

Primeiro, não farei um estudo sistemático de tudo que a Bíblica diz sobre “Poder”. Isso seria difícil para mim. O trabalho exegético, como a própria palavra diz, tem a intenção de extrair do texto Bíblico aquilo que ele está oferecendo e nada mais. Vejamos algumas definições de ‘exegese’:

= εξηγεομαι (gr.: exegeomai, exegesis)

(ex) tem o sentido de retirar, derivar, ex-trair, ex-ternar, ex-teriorizar, ex-por e

(hegeisthai) o de conduzir, guiar.

(Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.)

=εξηγεομαι (gr.: exegeomai)

de 1537 e 2233; TDNT – 2:908,303; v

1) conduzir, ser líder, ir adiante

2) metaf., expressar-se através de narrativa, expor um ensino

2a) recontar, relatar detalhadamente

2b) expor, declarar

2b1) as coisas relacionadas com Deus

2b2) usada na literatura grega para a interpretação de coisas sagradas e divinas, oráculos,

sonhos, etc.

(DICIONÁRIO BÍBLICO STRONG – Léxico Hebraico, Aramaico e Grego de Strong – c 2002 Sociedade Bíblica do Brasil SOCIEDADE BÍBLICA DO BRASIL)

Em termos mais simples, ‘exegese’ é extrair, tirar de dentro para fora as verdades do texto sagrado sem qualquer inferência. Prestar atenção no que o texto diz simplesmente.

Quando se diz que o texto diz o que ele não diz, dizemos que está acontecendo uma “eixegese”, que significa inserir, colocar, de fora para dentro. Esse perigo é constante e merece um trabalho sério de todo pregador, mestre ou discipulador. Dizer o que o texto não diz é muito comum em nossos dias. Esses desvios podem custar caro, comprometendo a saúde do Corpo de Cristo quanto a doutrina, sua identidade e sua missão. Dá trabalho, mas é preciso investir tempo, dinheiro, esforço, oração, para se fazer uma boa interpretação.

A “interpretação” só pode ser feita depois da extração respeitosa das verdades que o texto sagrado oferece, portanto, é uma das últimas coisas no estudo. Para uma boa “interpretação” também é preciso que se use as ferramentas da hermenêutica. Assim, as afirmações, máximas, conclusões e aplicações ao final do trabalho devem ser a expressão fiel do que o texto disse.

Alguns dizem que hermenêutica e exegese são sinônimos, mas gosto muito da explicação de um antigo professor, que dizia que a hermenêutica (a arte/ciência da interpretação bíblica) leva em conta o texto, o contexto próximo, o contexto remoto, a historicidade, a geografia, a religiosidade, o contexto político, o autor, suas realidades e intenções, os leitores, suas realidades e necessidades, o momento na história da revelação progressiva, extrair as verdades mais objetivas ao final e, por fim, fazer uma ponte hermenêutica até nosso tempo, 2 mil anos depois, se estivermos trabalhando em um texto do primeiro século.


A exegese se concentra mais no texto em estudo, sua análise sintática, as questões gramaticais, etimológicas, semânticas e as questões relacionadas ao contexto próximo prioritariamente. Na exegese, se separa todos os sujeitos do parágrafo, todos os verbos, substantivos, adjetivos, pronomes, artigos, preposições, declina-se tudo isso para observar respeitosamente como o Espírito Santo construiu o texto sagrado e o que está comunicando. Isso pode ser feito na língua original ou em português mesmo. Por isso, meu professor dizia que a exegese está dentro da hermenêutica. Uma completa a outra no esforço interpretativo, mas a hermenêutica usa um maior número de ferramentas em uma abrangência maior. A exegese usa mais ferramentas gramaticais, no texto em estudo, mas precisa da abrangência da hermenêutica para conferir os resultados interpretativos do texto em foco. A hermenêutica tem uma visão periférica e a exegese uma visão focada. Os dois são necessários para uma boa interpretação. Um dos princípios mais simples e importantes da hermenêutica Bíblica é: a Bíblica interpreta a própria Bíblia. Por isso, as verdades que nos são reveladas no trabalho exegético devem ser provadas pela Palavra de Deus toda na perspectiva da hermenêutica.

Todo esse labor acontece em cima de um texto SAGRADO, inspirado pelo Espírito Santo, e sem a iluminação que Ele mesmo nos dê, não entenderemos as verdades inspiradas aos autores Bíblicos, e não poderemos aplicá-las a nós, Igreja do século 21.

Sem a iluminação/inspiração do Espírito Santo, nossos olhos não enxergarão as verdades reveladas. Mas, sem o labor na busca das verdades de Deus em Sua Palavra, não alcançaremos o conhecimento destas verdades. Sempre conjugamos a inspiração e a transpiração. Os teólogos que aderem ao método histórico-gramatical usam a frase: ‘orare et labutare’ – orar e labutar, para valorizar a necessidade do trabalho mas também da total dependência de Deus para compreender seus desígnios por Sua Palavra.

Pregar a Palavra de Deus é muito mais que executar uma boa oratória. Se bem que, não é muito comum ouvirmos boas oratórias… O que é comum, é um pregador dizer coisas erradas no meio de uma oratória pior ainda. Depois de ouvir alguns pregadores, não sei se me enforco por causa das bobagens que disse ou pelo mal jeito em dizê-las. Bom… desabafos a parte, defendo o sério investimento na formação daqueles que ensinarão a Palavra de Deus. Sejam em salas de aulas, reuniões em grupos pequenos, púlpitos, rádios ou qualquer outro lugar de onde se fale em Nome de Deus. Em Nome de Deus… Só em dizer isso meu interior estremece.

Ok!??? Você está perguntando: quando ele vai entrar no assunto do Poder de Deus? (risos) – Chegaremos lá…

Minha intenção, além de estudar um texto, é fazer você saber de alguns passos na caminhada do conhecimento. Saber que dá trabalho. Saber que sem esforço não chegaremos muito longe. Saber que o texto sagrado precisa ser respeitado. Saber que o Espírito Santo, que inspirou o texto precisa ser respeitado.

Alguns pregadores liberam um fluxo verborrágico de afirmações embebidas em emoção, mas que não tem sentido definido nem fundamentação nas Escrituras Sagradas. Coisas como: – eu profetizo bla bla bla; eu libero bla bla bla, você é vencedor bla bla bla, você vai pisar a cabeça bla bla bla, e outras afirmações que fazem parte de uma dieta açucarada para a alma, afinadas ao pensamento da confissão positiva, da prosperidade, do triunfalismo evangelical, do humanismo travestido de crentismo.

Tudo isso é muito irritante. Não estou julgando o coração de ninguém, apenas as palavras que ouço de vez em quando.

Também é lamentável o fato de que muitos em nossa geração tem a unção do papagaio. Repetem tudo sem saber o que significa, e, em alguns casos, o que não significa nada.

Nosso saber precisa ir além da googlezificação, do Ctrl C Ctrl V, do compartilhar facebookiano. Precisamos produzir conhecimento e não apenas reproduzi-lo.

Produzir conhecimento dá muito trabalho.

Certa vez, estava dando aulas em um certo seminário, e uma pergunta foi feita a mim que não podia responder imediatamente. Me comprometi a estudar o assunto para repartir algo consistente. No dia seguinte lí uns 60 versículos que tratava do assunto, investindo uma hora e meia de pesquisa, para dar uma resposta que levaria uns 5 segundos. Fiz tudo isso, mas, antes de dar a resposta à classe, ousei perguntar aos alunos quantos textos precisaríamos estudar para se ter uma compreenção só razoável de algum princípio. Uma aluna mais corajosa disse: “há… eu acho que uns 3 textos, não é professor?” Precisei controlar o misto de sentimentos de minha alma e os diversos pensamentos eruptivos em minha mente, para chamar a atenção da classe para a necessidade de não economizar no estudo e na pesquisa da Palavra de Deus, até que tenhamos uma compreensão razoável e fundamentada da verdade que estamos buscando.

Sim! Dá muito trabalho, mas quem não quer investir seu tempo no estudo e aprofundamento do texto Bíblico, então vá trabalhar em outra coisa. Seja engenheiro, médico, vendedor, vender cachorro quente na praça, mas não faça de conta que é pregador da Palavra de Deus. A Palavra é de Deus. Deus é a origem e dono de Sua Palavra. A Palavra que pregamos não é nossa. Precisamos ter respeito.

Falo tudo isso como alguém que é refém desse temor. Sei que não estou pronto, nem sou o melhor exemplo de pregador, mas caminho estremecido por essas verdades e pela necessidade de respeitar a Palavra que pregamos, pois Ela é maior que o pregador. A mensagem do Evangelho que pregamos é muito mais sublime que a nossa própria vida. A mensagem é maior do que eu. Não consigo viver tudo que prego, porque a mensagem é perfeita, sendo proferida por um imperfeito como eu. Eu mesmo sou alvo de toda proclamação do Evangelho que sai de minha boca. Sempre pregamos pela fé, pela graça, pela misericórdia. Azeite puro em vasos de barro. Por causa dessa consciência, precisamos respeitar mais a unção que está em nós.

Que o Senhor nos ajude a crescer na graça e no conhecimento do Senhor Jesus, e refletir melhor Seu caráter em nosso viver.

Bom… vamos ao texto:

Atos 1:8

Vejamos algumas traduções:

Mas receberão poder ao descer sobre vós o Espírito Santo e serão minhas testemunhas tanto em Jerusalém, como em toda a Judeia e Samaria, e até aos lugares mais distantes do mundo.»

Sociedade Bíblica de Portugal: Bíblia Sagrada, A Boa Nova Em Português Corrente. Sociedade Bíblica de Portugal, 1993; 2006, S. At 1:8

Mas recebereis a virtude do Espírito Santo, que há de vir sobre vós; e ser-me-eis testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria e até aos confins da terra.

Sociedade Bíblica do Brasil: Almeida Revista E Corrigida. Sociedade Bíblica do Brasil, 1995; 2005, S. At 1:8

Porém, quando o Espírito Santo descer sobre vocês, vocês receberão poder e serão minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judéia e Samaria e até nos lugares mais distantes da terra.

Sociedade Bíblica do Brasil: Bíblia De Estudo Nova Tradução Na Linguagem De Hoje. Sociedade Bíblica do Brasil, 2005; 2005, S. At 1:8

Mas recebereis a virtude do Espírito Santo, que há-de vir sobre vós; e ser-me-eis testemunhas, tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria, e até aos confins da terra.

Sociedade Bíblica de Portugal: A Bíblia Sagrada Em Português, Edição Revista E Corrigida. Sociedade Bíblica de Portugal, 1968; 2007, S. At 1:8

mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhastanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria e até aos confins da terra.

Sociedade Bíblica do Brasil: Almeida Revista E Atualizada. Sociedade Bíblica do Brasil, 1993; 2005, S. At 1:8

αλλα λημψεσθε δυναμιν επελθοντος του αγιου πνευματος εφ υμας και εσεσθε μου μαρτυρες εν τε ιερουσαλημ και [εν] παση τη ιουδαια και σαμαρεια και εως εσχατου της γης

Novo Testamento Grego: Westcott-Hort (1881). Sociedade Bíblica do Brasil, 1881; 2007, S. At 1:8

Mas recebereis uma força, a do Espírito Santo que descerá sobe vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda Judeia e Samaria, e até os confins da terra

A Bíblia de Jerusalém . 10° Impressão , Nova Edição Revista, Paulus Editora, 1973; 2001, At 1:8

Mas quando o Espírito Santo descer sobre vocês, então receberão poder para testemunhar com grande efeito ao povo de Jerusalém, de toda a Judeia, de Samaria, e até dos confins da terra, a respeito da minha morte e ressurreição.

A Bíblia Viva, Segunda Edição, Ed. Mundo Cristão, 1981; 2002, At 1:8

1- O CONTEXTO

A primeira coisa a considerar é que este verso está dentro de um contexto. Para uma boa compreensão precisamos respeitar o texto, o contexto próximo, o contexto remoto e o Livro todo.

Para não estender de mais, vamos pensar que os dois primeiros capítulos de Atos falam do começo da Igreja. Vejamos um pequeno esboço desses dois capítulos:

I – O começo da Igreja ( 1:1 a 2:47)

  1. Prólogo (1:1 – 5)
  2. A Ascensão de Jesus (1:6 – 11)
  3. A volta dos discípulos para Jerusalém (1:12 – 14)
  4. O décimo segundo apóstolo (1:15 – 26)
  5. O derramamento do Espírito Santo (2:1 – 13)
  6. Pedro prega o evangelho (2:14 – 42)
  7. Resumo da vida da Igreja primitiva (2:43 – 47)

O texto em estudo está no segundo parágrafo do Livro, compreendido por 6 versos. A maioria dos estudiosos usam o tema desse parágrafo como citado: “A ascensão de Jesus”.

Talvez este seja um dos parágrafos mais importantes do Livros de Atos, pois nele encontramos uma palavra sobre o Reino, a Grande Comissão (ref. cruzadas em Mat 28:19,20; Mc 16:15-18; Lc 24:44-49), a promessa do batismo no Espírito, o testemunho da ascensão e uma palavra angelical sobre a segunda vinda de Jesus.

A partir daqui, Lucas, o autor do Livro de Atos, desenvolve o registro da história da Igreja e seu avanço no caminho processual da Grande Comissão, ou seja, testemunhar de Cristo a partir de Jerusalém (1:12 a 7:60), seguindo por toda Judeia e Samaria (8:1 a 40), e até os confins da terra (9:1 a 28:31).

2 – CONTEXTO PRÓXIMO

Vamos dar um zoom no texto.

O texto em estudo faz parte de uma pequena sentença dentro do parágrafo, compreendido pelos versos 06 a 08.

É um diálogo entre Jesus e seus discípulos, onde surgiu uma perguntam a Jesus, se seria naquele tempo que o reino de Israel seria restaurado. Atos 1:8 faz parte da resposta de Jesus a essa questão, mas, como muitas vezes Jesus fazia, Sua resposta apontou para uma verdade que os discípulos não estavam percebendo na pergunta.

Ao que parece, os discípulos queriam saber da restauração do reino a Israel no sentido político, por causa da opressão romana. Mesmo que, nos três anos anteriores, Jesus tivesse ensinado sobre o aspecto pessoal e espiritual do Reino de Deus, aqui é possível que os discípulos estivessem pensando que Jesus, ressuscitado, lideraria uma grande revolta contra Roma e libertaria Israel politicamente, inaugurando um novo tempo de liberdade e poder sobre Roma e sobre as demais nações da terra.

A resposta de Jesus à questão do Reino Restaurado foi dupla:

Primeiro, no versículo 7, Jesus alerta os discípulos que os tempos e épocas são da competência exclusiva de Deus, que tem a autoridade para decidir, conforme Sua Vontade, como os tempos e épocas se desenrolarão na história.

Segundo, no versículo 8, Jesus foca a atenção dos discípulos na grande comissão, onde testemunhariam da morte e ressurreição de Jesus desde Jerusalém até os confins da terra.

3 – O TEXTO DE ATOS 1:8

a- Visão Geral

A grande comissão deveria começar quando, do alto, os discípulos recebessem a promessa do Espírito Santo, capacitando-os com poder para cumprir a Grande Comissão.

Perceba que a ênfase não está no “receber poder”, mas no “ser-ME-eis testemunhas em Jerusalém, Judeia, Samaria e confins da terra”.

Para cumprir a missão, Deus enviaria o Espírito Santo, pois sem Ele e as capacidades que Ele daria à Igreja, não conseguiríamos cumprir a missão de Cristo.

i – Pausa para reflexão…

Por favor, percebam que o poder não existe sem o Espírito Santo. Não é uma questão do Espírito Santo enviar ou não o poder, mas sim do Espírito Santo estar ou não. Ele é o próprio poder. As manifestações sobrenaturais são dele. As curas são por causa Dele. Os milagres são manifestações do Espírito Santo mudando sobrenaturalmente condições naturais, sejam elas materiais, emocionais ou espirituais. O Espírito Santo e o Poder são o mesmo. Ele é o Espírito de Cristo na Igreja.

Por favor, percebam outra coisa: muito embora o Espírito Santo e o Poder sejam o mesmo, nem sempre o Espírito Santo, que habita em nós, se move com poder realizador visível. Nem sempre estamos curando enfermos, nem sempre estamos ressuscitando mortos, nem sempre expulsando demônios, nem sempre estamos fazendo milagres. Nem sempre estamos evangelizando, tendo palavras de sabedoria, de profecias, e outras coisas sobrenaturais. Quem dera vivêssemos mais na dependência do Espírito Santo. Seríamos mais abençoadores.

Por isso Lucas se refere aos dois: 1- Espírito Santo e, 2- o Poder.

Veja o texto de 1Co 12:4-11

4Ora, os dons são diversos, mas o Espírito é o mesmo.5E também há diversidade nos serviços, mas o Senhor é o mesmo.6E há diversidade nas realizações, mas o mesmo Deus é quem opera tudo em todos.7A manifestação do Espírito é concedida a cada um visando a um fim proveitoso.8Porque a um é dada, mediante o Espírito, a palavra da sabedoria; e a outro, segundo o mesmo Espírito, a palavra do conhecimento;9a outro, no mesmo Espírito, a fé; e a outro, no mesmo Espírito, dons de curar;10a outro, operações de milagres; a outro, profecia; a outro, discernimento de espíritos; a um, variedade de línguas; e a outro, capacidade para interpretá-las.11Mas um só e o mesmo Espírito realiza todas estas coisas, distribuindo-as, como lhe apraz, a cada um, individualmente.

Sociedade Bíblica do Brasil: Almeida Revista E Atualizada

Observem como eu recorri ao texto de 1Co 12:4-11 para compreender melhor sobre a natureza e propósito das ações poderosas do Espírito Santo em nós e através de nós. Essa ação é baseado no princípio da Hermenêutica Bíblica, de que a Bíblia interpreta a própria Bíblia.

Observem a expressão do verso 7 de 1Co12: “ visando a um fim proveitoso”. Este fim proveitoso aponta para fora. O “fim” são as pessoas que serão abençoadas pela manifestação do dom em mim. A essência do poder de Deus em alguém é claramente autruísta.

É claro que a presença e a manifestação do Espírito Santo em nós nos abençoa. Não há dúvidas disso, mas a essência desse poder em nós é autruísta. Não é para nós mesmos. É para os outros.

Toda experiência com o Poder de Deus deve se transformar em serviço a outrem. Toda unção, só tem sentido, quando se manifesta em ação abençoadora. Foi assim em Atos.

Outra coisa a perceber em Atos 1:8, é que o Poder está associado à Sua finalidade, ou seja, ser testemunha de Cristo. Se não for para testemunhar de Cristo, então não tem sentido Deus dar poder.

ii – Pausa para reflexão…

Por isso, não tem sentido quando alguns irmãos, pregando ou dirigindo o momento de louvor, ficam gritando para a congregação: “Você tem o poder de Deus”; “Você tem o poder de Deus”, se não for pra dizer para que. Poder para que?

O que me parece, é que tal afirmação incompleta, se torna um cafuné gospel na alma da Congregação, como se o propósito final do poder de Deus fosse me fazer sentir melhor e mais motivado para superar as dificuldades da própria vida, para eu alcançar meus alvos de bem estar pessoal.

Não está errado recebermos ajuda, poder, para suportarmos as lutas e seguirmos. Não está errado clamarmos a Deus por socorro e por bençãos. Precisamos de tudo isso.

O que é errado é fazer chover uma torrente de positivismo humanista, com declarações incompletas que tem como alvo apenas massagear a alma da congregação, sem enfatizar a Grande Comissão. Com isso, acabamos achando que nós somos o centro do universo e tudo existe para me satisfazer e me fazer sentir melhor. O pastor prega para mim, o coral canta para mim, o grupo de louvor se apresenta para mim, os oficiais da igreja abrem para oração para abençoar a mim, o culto é para mim no final das contas. Quando isso acontece, o culto já se tornou idolátrico, porque o alvo já não é mais Jesus. Nesse caso, o culto deixou de ser Cristocêntrico para ser antropocêntrico e hedonista.

b- Visão Particular

Vejamos algumas palavras bem interessantes:

Atos 1:8 mas recebereis [poder], ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas [testemunhas]tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria e até aos confins da terra.

Sociedade Bíblica do Brasil: Almeida Revista E Atualizada. Sociedade Bíblica do Brasil, 1993; 2005, S. At 1:8

=poder δυναμιςdunamis

de 1410; TDNT – 2:284,186; n f

1) poder, força, habilidade

1a) poder inerente, poder que reside numa coisa pela virtude de sua natureza, ou que uma pessoa ou coisa mostra e desenvolve

1b) poder para realizar milagres

1c) poder moral e excelência de alma

1d) poder e influência própria dos ricos e afortunados

1e) poder e riquezas que crescem pelos números

1f) poder que consiste em ou basea-se em exércitos, forças, multidões

No NT, essa palavra aparece 120 vezes, e quase todas é traduzida como “poder” ou “milagre” ou outra derivação de “milagre”.

Sua raiz é usada, em português, para a palavra ‘dinamite’, e tem a ideia de força explosiva mesmo.

Nem todas as vezes que essa palavra é usada no NT está no sentido positivo. Algumas se referem a poderes bons e maus, como em Ef 1:21 e 1Co 15:24

Ef 1:21 acima de todo principado, e potestade, e poder, e domínio, e de todo nome que se possa referir não só no presente século, mas também no vindouro.

1Co 15:24 e então virá o fim. Cristo destruirá todos os governos espirituais, todas as autoridades e poderese entregará o Reino a Deus, o Pai.

A palavra “poder” nesses textos é “δυναμιςdunamis”.

Esta palavra era usada no primeiro século para se referir a capacidade inerente de alguma pessoa ou coisa para realizar algo, seja físico, espiritual, militar ou político. Tal autoridade existe, independente de ser usada em alguma circunstância ou não (DITNT, v. 3, pg 573, 1983, Ed. Vida Nova).

Alguns sinônimos de “dunamis” eram muito comuns, como:

  • εξουσια exousia – Poder de escolher, autoridade, poder de ação, direito de agir, poder para governar – geralmente usada para pessoas.
  • θρονος thronos – Assento, cadeira, poder, lugar de governo, lugar onde se exerce poder.

Em suma, “dunamis” era usada para se referir a um poder que podia interferir no curso natural de pessoas, da natureza e da própria história. Tem a ver com a manifestação do governo de Deus na Igreja (Pessoas. Não instituição.), e seria manifesto pela Igreja no exercício de sua missão. A Igreja, como agente missionário do Poderoso Deus, poderia mudar o curso das vidas pela mensagem que carrega e proclama. Pessoas poderia ser salvas do governo do pecado, sujeitando-se a Jesus Cristo como seu Senhor e Rei. Como prova dessa possibilidade, o Espírito Santo se moveria com milagres na vida dessas testemunhas de Cristo, comprovando a eficácia da Palavra pregada das Boas Novas de Cristo.

iii – Pausa para Reflexão.

Lembrem que a pergunta dos discípulos era sobre a restauração do Reino de Israel. Na segunda parte da resposta que Jesus dá, Ele usa a palavra “dunamis”, que tem a ver com o Reino de Deus nas pessoas. De fato, o Espírito Santo conduziria a Igreja a andar no Poder de Deus para proclamar o Reino de Deus na vida dos que cressem.

Veja como a ideia de poder e governo está presente no Evangelho em João 1:12.

12Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que crêem no seu nome;

 A Palavra ‘poder’ aqui, no original é: εξουσιαexousia, e tem a ideia de autoridade ou autorização, direito de. Os que receberem a Jesus como seu Rei e Senhor, serão autorizados a fazer parte da família de Deus e serão co-herdeiros juntamente com Cristo. Seus pecados serão perdoados mediante arrependimento e fé, e serão revivificados em seus espíritos, mudando o curso da história na vida de tais pessoas. Estas serão transportadas com PODER, do império das trevas para o Reino do Filho de Deus. O Reino de Deus se instalará no coração desse crédulo, e o Espírito Santo lhe será o penhor dessa salvação.

dunamis” tem a ver com sermos testemunhas de Cristo, tem a ver com Missão, tem a ver com Reino de Deus, tem a ver com restauração das pessoas, tem a ver com o Reino de Deus nos corações, tem a ver com: eu era vingativo, e agora rápido em perdoar; eu era amargo na alma, e agora livre para amar; eu era amargurado e legalista, e agora compassivo e misericordioso; eu era inseguro e revoltado, agora paciente e abençoador; eu era egoísta, e agora tenho alegria em repartir; eu era isolado, agora vivo em comunidade; eu era entenebrecido pelo espírito da desobediência, agora a Luz de Cristo brilha em minha obediência a Deus por amor.


=Testemunhas μαρτυρες , martures(μαρτυςmartus)

TDNT – 4:474,564; n m

1) testemunha

1a) num sentido legal

1b) num sentido histórico

1b1) alguém que presencia algo, p. ex., uma contenda

1c) num sentido ético

1c1) aqueles que por seu exemplo provaram a força e genuidade de sua fé em Cristo por sofrer morte violenta

(tes.te.mu.nha) [Aulete-Dicionário Digital]

sf.

1 Pessoa que presenciou qualquer fato significativo: Foi um momento histórico, mas sem testemunhas

2 Jur. Pessoa chamada a depor a respeito do que presenciou: A testemunha disse ao juiz que não viu nada

3 Coisa que prova a veracidade de algum fato; PROVA; TESTEMUNHO.

4 Cada uma das pessoas que participam de um ato legal para lhe outorgar validade jurídica: testemunhas de casamento: testemunhas de batizado: testemunhas de registro de escritura

5 Espécie de marco de terra ou pedra que se deixa numa escavação para, depois, saber-lhe a profundidade

No NT, a raiz da palavra “testemunho” ( μαρτυς martus ) aparece mais de 150 vezes com diversas terminações. Com a terminação usada em Atos 1:8 (μαρτυρες , martures) aparecem 33 vezes.

Martus” é a raiz da palavra “martir” em português

=már.tir= s2g. (Aulete-Dicionário Digital)

1 Quem se sacrificou, ou foi morto, em nome de uma crença ou de um ideal:

2 Fig. Quem sofre intensamente por alguma coisa; VÍTIMA.

[F.: Do lat. martyr, is, do gr. mártyr, os.]

A testemunha de Cristo é a pessoa que teve uma experiência real com Ele, e ficou marcado, transformado por essa experiência. Não é alguém que apenas viu algo e conta o que viu, ou ouviu algo e conta o que ouviu, mas é alguém que foi marcado e transformado em sua natureza. Estava morto e reviveu. Era refém do pecado, mas agora tem o perdão, a justificação e a libertação do aguilhão do pecado. Era irremediavelmente amargo, agora, com o Espírito de Cristo no interior, exala a doçura de Cristo no viver. Era prisioneiro das trevas mas, agora que o Reino de Cristo entrou em seu coração é livre, mesmo que esteja fisicamente em cadeias ou perseguição. A realidade interior da libertação em Cristo é maior que as aflições que temos na vida, pois somos forasteiros em terra estranha, como diz Pedro. Não pertencemos a este mundo, assim como Jesus não pertencia, e o mundo não o conheceu.

Observe uma coisa: socialmente e economicamente os cristãos eram testemunhas de descensão. Praticamente todos que entravam na Fé Cristã eram perseguidos de alguma forma. Alguns eram surrados, outros eram mortos, outros eram deserdados de suas famílias e perdiam heranças e bens. Estes eram adotados pelos que tinham posses na Igreja. Por causa disso, os cristãos vendiam o que tinham e entregavam aos Apóstolos, para que distribuíssem entre os necessitados da Comunidade da Fé.

Então, qual era o testemunho dos cristãos?

Com base na Palavra de Pedro, em Atos 2:14 – 42, depois que o Espírito Santo veio e os batizou, notamos algumas coisas:

1- Um poderoso espírito de intrepidez.

Cheios do Espírito Santo, saíram para a rua sem medo ou vergonha, apesar do modo esquisito que estavam. Sabemos que o Espírito de Deus não nos tira a lucidez, pelo contrário, o Espírito de Deus em nós é luz, que nos ascende o entendimento, nos ilumina a inteligência, nos cura do entorpecimento de mente. Ou seja, eles sabiam como estavam, e mesmo assim, não se importaram com as esquisitices do batismo com o (no) Espírito Santo.

A maior prova dessa intrepidez foi Pedro. Alguns dias atrás, ele negara a Jesus descaradamente, mas aqui ele se levanta e faz o primeiro sermão da Igreja Cristã e mais de 3 mil pessoas são convertidas a Cristo.

2- Uma poderosa mensagem.

Homileticamente falando, a mensagem de Pedro não foi – lá – um bom testemunho. Não estou desdenhando, pelo contrário, vejo que a ação do Espírito Santo suplanta as deficiências em nossa homilia. Mas, estou falando da homilia e não do conteúdo, das verdades, da doutrina. Nesses aspectos, Pedro foi impecável.

Pedro fundamentou o ocorrido nos Salmos e nos profetas, a partir das lentes de Jesus, a Cruz e a Ressurreição. Seria correto pensar que o Espírito Santo estava fazendo quase tudo. Ele chegou, batizou a todos, começou o fenômeno da ‘glossolalia’, fez com que os discípulos saíssem para a rua, fez com que os estrangeiros ouvissem, cada um em sua língua sobre as grandezas de Deus. Depois que a atenção de todos estavam sobre os discípulos, Pedro e os onze se levantam e Pedro começa sua parte. Vejam um esboço da mensagem de Pedro:

1- Sobre o poderoso fenômeno da ‘glossolalia’ (2:14 a 21)

  1. Pedro explica que não era embriaguez, mas o cumprimento de profecia1.1.1 Cita Joel 2:28 – 32 – Fundamentação profética

2- Pedro joga o foco em Jesus de Nazaré (2:22 a 41)

    1. Jesus era homem aprovado por Deus2.1.1 Por causa dos milagres, sinais e maravilhas que fez2.2 Deus planejou entregar Jesus à morte pelas mãos dos ouvintes2.2.1 Vocês o crucificaram.2.3 Deus ressuscitou a Jesus

      2.3.1 Porque Ele é a vida e não podia ficar retido na morte

      2.3.1.1 Cita Sal 16:8-11 – Fundamentação profética

    1. Nós somos testemunhas da Ressurreição de Cristo (2:32)
    2. Jesus está assentado ao lado do Pai e deu o Espírito Santo2.5.1 Cita Sal 110:1 – Fundamentação profética2.6 Confrontação2.6.1 Vocês crucificaram o Messias de Deus2.6.1.1 Todos ficaram aflitos

      2.6.1.1.1 Perguntaram o que deviam fazer?

      2.7 Solução

      2.7.1 Arrependimento e o testemunho público da fé: o batismo

      2.7.1.1 Para perdão dos pecados

      2.7.1.2 Para receberem a promessa do Espírito também.

      2.7.2 A promessa e salvação é para todos que creem.

      2.8 Pedro continua dando outros testemunhos de Jesus

      2.8.1 Fez apelo para a salvação

      3- Resultado (2:41)

      3.1 Mais de 3 mil pessoas são convertidas a Cristo.


O testemunho dos discípulos focam em algumas verdades:

1- Todo homem é pecador e assassino de Cristo

2- Deus enviou Jesus para morrer na Cruz por nós

3- Deus ressuscitou a Jesus e O fez Senhor e Salvador do que Nele crê

4- Todos precisamos nos arrepender de nossos pecados e crer em Cristo

5- O perdão, a salvação e a promessa do Espírito Santo é para todo o que crê.


Conclusão

Uma exegese completa faria a tradução de cada palavra do versículo, mas, creio que mergulhar nessas duas palavras do versículo: “Poder” e “Testemunha”, já nos ajudou a responder as questões feitas no início.Como já fiz reflexões e conclusões no meio do texto, não repetirei aqui.

Espero que tenha se divertido.

Espero também que deixemos os espasmos emocionais e tenhamos um pouco mais de consciência e respeito quando fizermos afirmações de púlpito.

Há… uma palavra aos dirigentes de louvor: Deixem a pregação para o pastor e, por favor, parem com esse negócio de “atos proféticos”. Vocês nem sabem o que é isso. Tenham respeito com aquilo que é sagrado. Qualquer dia eu te convido a divertir-se comigo numa caminhada para entendermos melhor o que é um ato profético.

Deus te abençoe.

Paulo Moral, pr, servo, testemunha de Cristo 


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5 de março de 2012 - Posted by | Kerigma, Sobre Liderança

6 Comentários »

  1. Olá Pastor, prefiro em pedaços, pois na correria do dia-a-dia, em poucos minutos podemos ler. Os artigos são muito bons, bíblicos, e fica com um gostinho de quero mais.

    abraço
    Marcelo

    Comentário por Marcelo | 6 de março de 2012 | Responder

    • Obrigado Marcelo, pelas palavras e por sua opinião. Vou considerar. Deus te abençoe.

      Comentário por Paulo Moral | 6 de março de 2012 | Responder

  2. Querido pastor, seus estudos tem me “alinhado” em alguns pontos da minha vida. Tem me edificado bastante!

    Gostaria de receber seus artigos pela metade como tem feito até então. Assim tenho o privilegio ir ao seu site e ver outras matérias.

    Grande abracos

    Comentário por Midian Feitosa | 6 de março de 2012 | Responder

    • Oi Midian, fico feliz que te abençoe com os artigos. Esse é meu propósito. Obrigado por sua opinião. É importante. Deus te abençoe.

      Comentário por Paulo Moral | 6 de março de 2012 | Responder

  3. Olá Paulo, eu prefiro receber os artigos inteiros e de uma só vez.

    Pra mim fica mais fácil ler e meditar, tendo o artigo inteiro de uma só vez.

    Um forte abraço

    Wassil

    Comentário por wassil mogone | 5 de março de 2012 | Responder

    • Obrigado Wassil. Tenho publicado sempre em pedaços, mas vou considerar sua opinião. Obrigado por dizer. Deus te abençoe amado.

      Comentário por Paulo Moral | 5 de março de 2012 | Responder


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