Monte de Adoração

Paulo Moral & Cecília Moral

PQGP 27 – Interpretando a Bíblia Hoje 5 – Uma Volta à Bíblia

Como será a Igreja do Brasil nos próximos 100 anos?

Pense comigo: A Igreja reformada caminhou pela história por 400 anos, até o final do século XIX, com algumas correntes teológicas e doutrinárias defendidas ao preço de muito estudo da Bíblia e da procura da melhor compreensão das revelações do cânon.

Podemos mencionar alguns ícones nesses 400 anos como Calvino, Lutero, Ulrico Zuínglio, Tiago Armínio, John Knox, os catecismos do século XVII, Wesley no século XVIII, o êxodo europeu de cristãos para a América do norte do século XIX. Também neste século, chegaram ao Brasil missões Luteranas, Congregacionais, Presbiterianas, Metodistas e Batistas. No começo do século XX nasce a Assembleia de Deus e o Pentecostalismo. O Evangelho cresceu no Brasil neste século, até que, na década de 1970, nasce o que chamamos hoje de neo pentecostalismo.

O que vou dizer agora é uma crítica histórica e não pessoal”.

O neo-pentecostalismo nasceu com coisas boas e ruins. Dentre as ruins, destaco a rejeição para com os chamados tradicionais e algumas de suas práticas, como a Escola Bíblica e o ensino teológico.

Observe: Em 470 anos de Igreja Reformada (caracterizada pelo estudo, catecismos, declarações de fé, elaboração de teologias, discipulados, valorização dos que tinham a vocação à pregação e ao estudo Bíblico), convivemos com algumas linhas teológicas, doutrinárias e denominações.

Observe: Em 40 anos de neo-pentecostalismo convivemos com um déficit de conhecimento e ensino Bíblico, a supervalorização do subjetivismo da experiência mística, de líderes e visões que parecem suplantar a própria Bíblia e de uma nova hermenêutica (no sentido negativo). Também convivemos com um sem número de denominações que não sabemos nem contar.

O que nos parece é que o afastamento do conselho simples de Atos 2:42 (E todos continuavam firmes, seguindo os ensinamentos dos apóstolos, vivendo em amor cristão, partindo o pãojuntos e fazendo orações. [NTLH]), pode ter pulverizado os valores fundamentais do cristianismo bem como a sã doutrina.

Se o crescimento das igrejas locais nos últimos 40 anos tivessem guardado a qualidade doutrinária, o ensino Bíblico sério e sistemático, o espírito missionário e o sacerdócio de todos os crentes, talvés o Brasil, hoje, fosse o grande celeiro de missões para o mundo e aceleraríamos a ‘parousia’.

Criticamos a romanização da Igreja, mas cabe lembrar que demorou mais de três séculos para isso acontecer. Se não voltarmos à autoridade normativa Bíblia, poderemos ver um corrompimento desastrozo da igreja em algumas décadas. Não quero que minha geração seja conhecida por permitir isso.

Nossa esperança é que Espírito Santo é o tutor da Igreja.

Como será a Igreja do Brasil nos próximos 100 anos?

Por isso, precisamos voltar à Bíblia.

Veja o próximo ponto desenvolvido pelo Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho. Leia observando sua crítica histórica e pragmática.

4. Uma Volta à Bíblia

Uso um trecho, um pouco longo, de um trabalho que apresentei, sob o título “Sou batista! Tenho uma identidade!”8. É um tópico sobre a nova hermenêutica. Dispenso as aspas porque sou o autor das ideias a seguir:

A nova hermenêutica é o aspecto mais preocupante no uso das Escrituras. Com a Igreja Católica, a fonte de autoridade era a Igreja, subsidiada pela Tradição e pelo Magistério. Lutero tirou a fonte de autoridade da Igreja e a colocou na Bíblia. O movimento pentecostal a tirou da Bíblia e colocou na experiência. O movimento neopentecostal está construindo outro eixo hermenêutico: a de gurus, de pessoas com mais experiência com Deus. É o início de um retorno ao eixo católico. Isto vai trazer consequências danosas para o evangelho, mais à frente, embora já esteja trazendo agora. É que nesta postura, a Bíblia fica subordinada às declarações humanas. Em vez de reger a teologia da igreja, ela passa a ser explicada pela teologia da igreja. Esta nova hermenêutica é muito perigosa porque além de mudança de eixo mudou também o critério de interpretação. No protestantismo histórico e entre os evangélicos históricos, o critério de interpretação da Bíblia sempre foi a pessoa de Cristo, com base no conceito de na revelação progressiva, que depreendemos bem de Hebreus 1.1-2. É o Novo Testamento que interpreta o Antigo e este não pode se sobrepor ao Novo. Hoje o critério de interpretação é o Espírito Santo. Um pastor neopentecostal dizia pela televisão que “Jesus é o canal para nos trazer o Espírito Santo”. Antes era o Espírito Santo quem nos levava a Cristo. Agora Cristo nos traz o Espírito. Cristo é o meio para se chegar ao Espírito, que é o final. A Igreja Universal do Reino de Deus, por exemplo, não tem a cruz como seu símbolo, mas uma pomba, significando o Espírito Santo. É a chamada “onda do Espírito”, que é, na realidade, uma pretensão à nova revelação. É aqui que reside o perigo maior: o Espírito Santo é um eufemismo para as impressões pessoais do intérprete, que se tornam uma palavra inspirada. O que ele acha é revelação do Espírito. Assim, a Bíblia deixa de ser normativa e passa a ser indicativa. A normativa é a palavra do líder. O uso que as campanhas da Universal fazem das Escrituras, particularmente o uso do Antigo Testamento, mostra isso. A Bíblia apenas legitima as práticas do grupo, em vez de regê-las. E o Espírito Santo se tornou propriedade dos iluminados da seita. O Espírito Santo fala quando alguém, líder, “sentiu” uma nova verdade. Na nova hermenêutica, o sentir vale mais que o que é, o que está escrito. Jesus é uma pessoa histórica, objetiva, e seu ensino está na Bíblia. O Espírito Santo não é uma pessoa histórica, embora seja uma pessoa, e seu ensino passa a ser o que as pessoas sentem. Isto cria um clero, pessoas especiais, com revelações do Espírito. Há, então, um clero que determina o credo e a prática para o povo. Tanto que muitos desses grupos não ligam a mínima para educação religiosa, EBD, etc. . Basta-lhes um salão para realizar seus cultos, carregados de emoção e muitos deles manipuladores das pessoas.

Esta nova hermenêutica tem privilegiado o domínio de revelações, visões e sonhos sobre a Bíblia. Uma pastora neopentecostal dizia, pela televisão, ter um mapeamento das potestades demoníacas. Quem era o demônio regente de cada território, os chamados demônios territoriais. Quando perguntada sobre onde conseguiu isto, disse com toda simplicidade que foi de demônios postos sob juramento. Não sei se um demônio mesmo jurando estará dizendo a verdade. Mas me impressiona que uma pessoa diga com todas as letras que está ensinando uma revelação de demônios e as pessoas que a ouvem ainda exultem com isso.

Nossa identidade batista parte daqui: zelo pelas Escrituras. Nada de mais nada de menos. Quando ela fala, nós falamos. Quando ela cala, nós calamos. Todo material que produzimos, toda e qualquer postura eclesiológica, devem ser avaliados por ela. Não é se deu certo em algum lugar ou se está enchendo alguma igreja em algum lugar, ou se foi proferida por algum teólogo ou pastor muito consagrado e zeloso pela doutrina, mas se não colide com a Bíblia. Aliás, todas as heresias nasceram de pessoas muito espirituais e zelosas. Não de mundanos. É o que Paulo disse dos judeus: “têm zelo de Deus, mas não com entendimento”. O entendimento das Escrituras é fundamental para uma denominação sadia.

Até a última linha, o trecho da palestra. Agora, a questão, como ter uma hermenêutica sadia, uma volta à Bíblia. Atrevo-me a alistar algumas sugestões;

  1. Reconhecendo-a como normativa, autoritativa, palavra última, definitiva e cabal de Deus. Não há o que lhe acrescentar.

  2. Trazendo os ensinos humanos ao seu crivo, subordinando-os a ela. Todo profeta, todo pregador, deve ser avaliado à luz das Escrituras. Se ele falar e não se cumprir, ele é falso (Dt 18.22). Se ele falar, cumprir-se o que ele falar e ele desviar o povo da Palavra, deve ser morto (Dt 13.1-5). O padrão é sempre a Palavra falada de Deus.

  3. O bom senso recomenda que se fuja das interpretações que jamais alguém viu, do ineditismo. Quem se coloca sob holofotes deve ser rejeitado imediatamente.

  4. Os batistas não surgiram ontem e têm uma herança teológica coerente, uma teologia fechada (no sentido de ser completa, de abarcar todas as áreas da vida). Cuidado com visões fragmentárias, em que toda a Bíblia é analisada à luz de uma parte.

  5. Cuidado com o experiencialismo, aquela atitude em que as experiências humanas são válidas e julgam a Bíblia. É a Bíblia que deve julgar nossas experiências, e não o oposto. A ordem é FATO > FÉ > EMOÇÃO. Existe um FATO: Deus e sua Palavra. Eu tenho FÉ neste fato. Como conseqüência de minha FÉ neste FATO experimento a EMOÇÃO de ser salvo, de ter direção na minha vida, etc. Quando a ordem é invertida, em vez da Bíblia reger minha vida, minha vida rege a Bíblia. Isto é uma variação da neo-ortodoxia: a Bíblia se torna a Palavra de Deus pela minha experiência.

  6. Como conseqüência, o ensino bíblico criterioso, a hermenêutica correta e a exegese bem feita devem ser objetos de estudo do pastor, para alimentar sadiamente sua igreja.

Conclusão (próximo artigo)

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2 de setembro de 2011 - Posted by | Kerigma

4 Comentários »

  1. Olá, Paulo

    Sou o João de Petrópolis ( amigo do Reuel). Muito bom e sério o texto. Também desafiador, pois vai de encontro ao que temos ouvido hoje em dia. Tenho chamado o que temos ouvido de muitos púlpitos e em diversas canções de “o evangelho da sanguessuga”. Se quiser leia o artigo que escrevi em meu blog:

    http://ap221.wordpress.com/2009/07/15/as-filhas-da-sanguessuga/#more-164

    Abraços para você, Cecília e seus filhos.

    João Batista Weinem

    Comentário por João Batista Weinem | 9 de setembro de 2011 | Responder

    • Obrigado João. Verei seu artigo. Deus te abençoe.

      Comentário por Paulo Moral | 9 de setembro de 2011 | Responder

  2. Parabenizo e concordo com você pastor, em se preocupar com o estudo das sagradas escrituras. A igreja deve conhecer o seu Deus e a sua vontade, e não há outro meio que não seja pela bíblia, onde podemos ver a sua face. Também me preocupa muito e me entristece este evangelho que vejo pregado hoje. um evangelho de engano, de interesses, de busca do material, do palpável. Que fé e essa que se prega hoje? Que Deus é esse que se busca hoje? A rejeição à bíblia, a rejeição à escola bíblica dominical,fazendo crescer uma igreja fraca e sem identidade. Espero que continue trabalhando em defesa da fé. E creio que cada um de nós pode fazer a sua parte . Orientando quando possível, questionando, mostrando dentro da própria palavra a necessidade de tê-la como nossa bússola e nosso pão, pois temos dias indeterminados de caminhada e precisamos estar fortes e saudáveis, alimentados com alimento sólido, que nos manterá de pé, independente dos ventos ou tempestades que possam nos alcançar.

    Comentário por Iêda castro | 7 de setembro de 2011 | Responder

    • Amém irmã Iêda. Que Deus nos ajude a cooperar com a Igreja do Brasil. Deus te abençoe em tudo.

      Comentário por Paulo Moral | 7 de setembro de 2011 | Responder


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