Monte de Adoração

Paulo Moral & Cecília Moral

PQGP 24 – Interpretando a Bíblia Hoje 2 – O Mau Uso da Bíblia

Estava eu, a Cecília e alguns amigos cultuando em uma igreja. O pregador convidado estava fundamentando equivocadamente quase tudo que falava, mas uma coisa me fez quase vomitar. Ele usou o texto de Daniel 7:1 a 8, sobre a visão dos quatro monstros (animais) que aparecem depois do sopro dos quatro ventos sobre a terra. O pastor disse (sei lá porque???) que os quatro animais representavam quatro qualidades que seriam sopradas sobre a Igreja. Depois de afirmar isso, começou a ‘profetizar’ esse vento sobre a Congregação que condescendeu com gritos e améns.

Os versos de 9 em diante explicam a visão. Os monstros são os quatro impérios mundiais: Babilônia, Persa, Grego e Roma, blasfemos e destruidores de gente, que no tempo do Senhor (por vir) se renderiam ao Reino de Deus. Eles são levantados do mar, que representa as forças do mal. O vento é a força que ativa o levantamento desses impérios idólatras e endemoninhados.

Meu Deus… tenha misericórdia de nós. Convivemos com o mau uso da Bíblia. Vamos continuar nesse assunto.

1. O Mau Uso da Bíblia

No artigo “Reflexões sobre o púlpito brasileiro”1 mencionei um pregador que pregou contra o parto cesariana sem dor, com base em Gênesis 3.16 (“com dor darás à luz filhos”). Uma senhora da sua igreja contra-argumentou, lembrando que ele tinha ar condicionado no gabinete e a Bíblia diz “No suor do teu rosto comerás o teu pão”. Outro pregou contra a prática de esportes, baseando-se em 1 Timóteo 4.8: “o exercício corporal para pouco aproveita”. Um outro pregou em 2 Samuel 11.2 (“E viu do terraço a uma mulher que se estava lavando”). Falou contra a televisão. Nela, vemos o que não devemos ver. Veio um outro e pregou sobre “e todo olho o verá” (Ap 1.7) e mostrou o valor da televisão via satélite. E aí, compro televisão ou não? Essas questiúnculas ridicularizam a Bíblia. Seu uso deve ser coerente e obedecer a certos parâmetros. A Bíblia deve ser respeitada e nunca usada para autorizar esquisitices.

As questões do parágrafo acima podem até ser vistas com certa dose de humor, mas o que dizer de pregadores que usam a Bíblia para enviar recados aos discordantes, que se valem do sermão para fortalecer sua posição (“sou o ungido do Senhor, quem estende a mão contra mim morre”) e para a obtenção de vantagens pessoais? E o que dizer de exegeses muito mais discutíveis, algumas até mesmo falsas? Hagin, em seu livro O Extraordinário Crescimento da Fé, tenta provar uma tese bem discutível, de que fé é fazer as coisas acontecerem. Usa o texto de Hebreus 11.1 (“Ora, a fé é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que não se vêem” – esta é a versão empregada em seu livro). Não tendo como provar seu argumento, que segue na linha das seitas metafísicas de Boston, de que a palavra humana faz as coisas acontecerem, emite a seguinte observação: “Ainda outra tradução diz: ‘A fé é certidão da garantia, a coisa em que esperamos até ao fim acaba sendo nossa'”2. Esta declaração confirma a posição de Hagin, mas não é bem isto que o texto grego quer dizer, aliás bem visível nas traduções. Mas a palavra de Hagin me suscitou uma questão. Anotei ao lado, no livro: “Que tradução é esta?”. Se ela realmente existe, por que não a identifica?

Em outras ocasiões, vemos com abundância o uso de versículos fora do contexto, de passagens sem conexão com o todo da Bíblia, no que chamamos de “leitura fragmentária”, e a ignorância do contexto cultural. Pode-se usar a Bíblia e ainda assim estar errado. Citar a Bíblia não é garantia de se estar certo. Quando questionei um mórmon sobre poligamia, ele respondeu biblicamente, com os exemplos de Abraão, Isaque, Jacó, Davi e outros. Certa vez, em Brasília, uma senhora me interpelou, em um estudo bíblico, discordando de posição que eu expunha. Quando fiz a exegese do versículo (e fiz de maneira correta), ela respondeu que não aceitava o que eu estava fazendo. Eu estava torcendo a Bíblia. Ela não queria saber de grego e hebraico nem de voltinhas hermenêuticas para justificar posição. Ela era literalista. O que estava escrito devia ser lido como estava e obedecido como estava. Então eu lhe disse que se sentasse, ficasse calada, nada dissesse, e deixasse para perguntar em casa (não na igreja) e ao marido (não a mim). Porque está escrito na Bíblia: “As vossas mulheres estejam caladas nas igrejas; porque não lhes é permitido falar; mas estejam sujeitas, como também ordena a lei. E, se querem aprender alguma coisa, interroguem em casa a seus próprios maridos; porque é vergonhoso que as mulheres falem na igreja” (1Co 14.34-35). A interpretação bíblica sem análise do contexto cultural e exegético, como ela queria, me autorizava a agir assim. Cuidado, portanto, com versículos sem conexão com o todo e sem o uso de regras hermenêuticas, para provar posições.

________________________________________________________________________

2 HAGIN, Kenneth. O Extraordinário Crescimento da Fé. Rio de Janeiro: Graça Editorial, s/d, p. 17

2. O Abandono da Bíblia como Normativa (próximo artigo)

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29 de julho de 2011 - Posted by | Kerigma

19 Comentários »

  1. Pr.Paulo, como sempre Mestre na palavra, Deus continue te abençoando…
    um abraço para esta família, que me ensinou muitas coisas.

    Comentário por Patricia | 20 de agosto de 2011 | Responder

  2. Nada como ler pela manhã uma artigo tão sábio que revela a sensibilidade espiritual do escritor. Pr. Paulo meu chará, Deus continue dando-lhe graça para saúde e equilíbrio de sua igreja.

    Comentário por Paulo Coelho | 18 de agosto de 2011 | Responder

  3. Amém, estarei aguardando.

    Comentário por Marcio Ruben | 12 de agosto de 2011 | Responder

  4. Pr. Paulo gosto muito dos seus estudos, creio que Deus lhe abençoou com o dom de ser doutor Ef4.11, tenho lido algumas passagens na biblia que tem me despertado inquietação, pois com certeza vejo que a grande maioria de nós não a segue como deveriamos, mas gostaria de te perguntar algo aparentemente simples porém que me gera duvida, o que o Sr. tem a me dizer com relação as passagens na biblia que dizem que não deverimos comer carne de porco, e guardar e santificar o sabado?
    um abraço

    Comentário por Marcio Ruben | 11 de agosto de 2011 | Responder

    • Obrigado Marcio. Terei mais tempo na próxima semana e vou te responder com mais dedicação.
      Abraços

      Comentário por Paulo Moral | 11 de agosto de 2011 | Responder

  5. Ainda bem que ainda temos pessoas que buscam conhecer a fundo a palavra de Deus.Obrigado.

    Comentário por Toniele | 4 de agosto de 2011 | Responder

    • Eu que agradeço. Deus nos ajude a respeitar Sua Palavra.

      Comentário por Paulo Moral | 4 de agosto de 2011 | Responder

  6. Não é mole, mas a a biblia já previa. É o que o povo está querendo ser levado por palavras persuasivas. Temos que estar atentos!

    Comentário por André Felipe | 2 de agosto de 2011 | Responder

  7. muito bom…muito bom

    Comentário por geraldo | 1 de agosto de 2011 | Responder

  8. Assino em baixo do artigo e dos comentários !Muito bom!!!

    Comentário por geraldo | 1 de agosto de 2011 | Responder

  9. ótima série, pastor. Como diz sempre o pastor antonio carlos daqui do RJ: Bíblia na mão de pregador despreparado é o mesmo que arma na mão de criança. Infelizmente tem muitos. Deus te abençoe, amado!

    Comentário por Blog do Tiago Lino | 30 de julho de 2011 | Responder

  10. Pr Paulooooo… meu pregador preferido!!!! Mto boa a sua observação. Como posso conhecer as regras hermenêuticas????
    Deus abençoe e saudades de vocês Família!!!!

    Comentário por Roberta Maia | 29 de julho de 2011 | Responder

    • Oi Roberta, saudades. Espero que esteja bem.
      Tenho compartilhado vários materiais que devem ajudar a criar uma boa consciência para o estudo da Palavra.
      Está em meus arquivos, material com instruções para uma boa hermenêutica bíblica. Vai companhando aí que vai te ajudar.
      Espero poder abençoar todos que amam a Deus e Sua Palavra.
      Abração.

      Comentário por Paulo Moral | 29 de julho de 2011 | Responder

  11. Muito bom e oportuno, Pr. Paulo. Chega de estupros bíblicos (leia-se abusos às Escrituras para benefício de ideologias pessoais, egocêntricas; ).
    Obrigado por compartilhar!

    Comentário por Rodrigo Ferreira | 29 de julho de 2011 | Responder


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