Monte de Adoração

Paulo Moral & Cecília Moral

Para Quem Gosta de Pregar 8

A migração de crentes entre igrejas locais sempre foi uma grande crise para os pastores. Para evitar tal migração, muitos tem barateado a mensagem e enfermado a doutrina, fazendo de seus púlpitos e plataformas um palco de atrações e entretenimento. É claro que falamos em termos gerais. Ainda vemos seriedade nas ministrações em várias Congregações, mas isso não deve nos consolar.

Esse assunto mereceria muito mais atenção, o que pretendo dar com o tempo, refletindo sobre os diversos motivos, bons e maus, desse fenômeno da migração de crentes. Dentre os motivos, a pregação, certamente é um dos principais, ao meu ver. Por isso estou repartindo com você uma pesquisa acadêmica que espeta a bexiga de nossos ufanismos predicacionais.

3 A Migração dos Membros da Igreja

Só pra relembrar, estamos passando os resultados de uma ‘pregação’ que não conforta ou não incomoda ninguém. Os resultados, segundo o comentário de H. W. Robins, são cinco.

1 O Crescente Desprestígio da Pregação
2 A Crise de Identidade da Igreja
3 A Migração dos Membros da Igreja
4 A Procura de Substitutos à Pregação

3 A Migração dos Membros da Igreja

O Pr. João Falcão Sobrinho, num artigo propondo uma forma de atuação da Igreja para com seus excluídos estima que para cada cem batistas brasileiros há quarenta e dois excluídos. Ele dá o exemplo de um bairro no Rio de Janeiro onde foi feito um levantamento e constatou-se que ali haviam mais batistas excluídos do que membros da Igreja local. Segundo o manual de “pré-evangelização” da Junta de Missões Nacionais da Convenção Batista Brasileira, em nossas Igrejas, em média, batizamos uma pessoa para cada dez que “se convertem” e chegamos a excluir 50% dos que batizamos.

Até que ponto esta migração tem a ver com a pregação que se faz na Igreja? Em 1986, num Congresso Nacional de Evangelização e Missões,  ocorrido no Rio de Janeiro, o Pr. Irland Pereira de Azevedo apresentou um estudo no qual alistou alguns dos motivos pelos quais igrejas estão morrendo, dentre estes a pretensão de trazer os homens à Igreja antes de lhes falar de Cristo.

Outro motivo apontado pelo ilustre pregador foi “a pregação de um evangelho barato, antropocêntrico e deslembrado da soberania e Senhorio de Cristo”. Isto posto, é inegável que dentre outros fatores, a pregação é estreitamente relacionada ao êxodo que boa parte dos membros empreende das igrejas.

Igrejas com bancos vazios não são, infelizmente, exceções nos nossos dias.  Uma explicação para a quantidade de bancos vazios numa Igreja é encontrada no livro de Blackwood, onde transcreve um estudo do inglês Charles Morgan.

O púlpito deveria alimentar as ovelhas e não apenas “divertir a assistência”. O que
o ausente exige e deixa continuamente de achar, é algo que o interesse e desafie na
Igreja. O que mais o desaponta são os sermões – não como muitos pastores
modestamente supõem, por serem longos demais ou porque ofendem o ouvinte,
mas pela razão oposta, por serem mesquinhos, por não irem bem ao fundo da
questão e por serem conciliadores e tímidos demais… Quando o sermão começa,
o que deseja ouvir… é o pastor que, sem temor nem compromisso, relacione o seu
assunto, qualquer que seja, com as verdades mais profundas do Cristianismo.

Desta forma, parece-nos inegável que dentre outras consequências, a migração reflete o lugar descaracterizado que a pregação ocupa atualmente em nossas Igrejas e confirma a tese de que bancos vazios refletem púlpitos descontextualizados.

O abandono da Igreja é visto por Martha Saint de Berberián como, em muitos casos, decorrência da “desnutrição espiritual” a que os membros ficam expostos quando seus pastores não são eficientes no suprimento do “alimento”. Esta autora expõe a necessidade de o pregador estar consciente da variedade de necessidades que envolve uma congregação para então dedicar-se a supri-la com “uma dieta balanceada” por sermões com temas e objetivos variados, práticos e que toquem as vidas das pessoas com a Verdade de Deus.

Samuel Escobar, professor de Missiologia e Estudos Hispânicos no Eastern Baptist Theological Seminary, em Filadélfia, EUA, batista boliviano e ex-secretário executivo da Aliança Bíblica Universitária, escreveu um artigo em que respondeu à questão do porque do crescimento dos protestantes na América Latina. Segundo fontes citadas pelo autor, os evangélicos chegam a 12,5% da população do continente. Não é difícil perceber que tal índice de crescimento espelha principalmente a expansão das Igrejas Pentecostais e neo-Pentecostais nestas últimas décadas.

A mobilização dos leigos e a ativa participação popular nas tarefas da igreja, marcas características do pentecostalismo, são apontadas por Escobar. Outra característica marcante dos pentecostais é a adentração que tais Igrejas têm junto à população marginalizada com uma proposta de auxílio às suas carências, inclusive materiais que, para o autor, também explica este crescimento. Eles crescem porque “têm conseguido atingir melhor os pobres emocionalmente e consolá-los”.

Sendo assim, deduzimos que grande parte da migração dos membros explica-se pelo tipo de cuidado e mensagem que recebem. Não discutimos a legitimidade da mensagem que se prega nos diversos púlpitos, no entanto, isto nos alerta para o fato de que estas mudanças acontecem pela insensibilidade dos nossos púlpitos para com as reais necessidades de profundidade, doutrina e aplicabilidade das verdades do Reino de Deus aos ouvintes.

Se os médicos de um hospital, que tem todos os mecanismos de pesquisa e tratamento das enfermidades da população, não se dedicam a utilizar os melhores tratamentos para com os enfermos, estes enfermos desistem e vão em busca de outras alternativas. Nossos pregadores não têm identificado corretamente as doenças do povo de nossas Igrejas e, muitas vezes, lhes têm designado “medicamentos” inócuos.

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14 de outubro de 2010 - Posted by | Kerigma

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